No mês de fevereiro abrimos as portas do Firmorama para receber nosso amigo e fotógrafo Ricardo Perini, o primeiro convidado do Residência Criativa — projeto experimental que tem como propósito incentivar a troca de ideias e uma compreensão mais aprofundada de diferentes áreas de atuação.

Durante uma semana Ricardo acompanhou nossos trabalhos, compartilhou conosco suas vivências no universo da fotografia e provocou diálogos e reflexões.

Abaixo, um texto contando sua experiência e alguns registros do cotidiano de Jaraguá do Sul, feitos a partir do seu olhar único para a rotina e arquitetura das cidades:

Ficções pessoais

Entre curvas, nuvens e montanhas fica Jaraguá do Sul, uma cidade tão exata com suas peculiaridades que cairia bem a habilidade descritiva do grande escritor Ítalo Calvino para lhe fazer justiça. Em uma das vias que a contornam, logo antes da curva que sucede uma ponte, fica o Firmorama, a agência de Design mais bacana do sul do mundo. Por lá eu tive a sorte de ficar durante uma semana fazendo uma imersão criativa que teve desdobramentos interessantes na minha jornada como fotógrafo.

Em algumas manhãs, durante o café, a gente trocava ideia sobre livros de fotografia. A conversa, sobre os fotógrafos e seus livros, fluía muito bem. O turbilhão de opiniões que saiu das nossas cabeças logo se tornou um exercício intrigante que nos colocou em contradição. Tudo culpa dessa nossa mania de querer categorizar o mundo.

Sou um viciado por cidades grandes e pra mim é sempre uma viagem em mim mesmo quando vou para uma cidade pequena. Não demorou muito e comecei a me perguntar o que aquelas pessoas estavam fazendo ali, por que Jaraguá? Depois de me relacionar um pouco com cada um da equipe Firmorama, juntei os motivos e experiências individuais e comecei a entender melhor o que se passava ali.

Antes de ir para Santa Catarina, tínhamos algumas ideias sobre o que fazer durante a semana em que eu estivesse lá, uma dessas ideias era um bate-papo sobre fotografia de arquitetura. À medida em que os dias foram passando e que fui entrando no ritmo deles, dei de cara com algo extraordinário: era o primeiro grupo de pessoas que eu conhecia que efetivamente “pensava globalmente e atuava localmente”. Logo, não fazia muito sentido fazer uma fala onde eu impusesse as minhas experiências.

Comecei a vasculhar as anotações dos meus estudos em Nova York e percebi que nelas existia uma falsa linha do tempo, que eu mesmo criei, sobre fotógrafos de arquitetura. Então resolvi que a melhor forma de compartilhar meus questionamentos seria apresentando a sequência tal como estava, deixando claro que a apresentação se tratava de uma linha do tempo ficcional.

No final das contas, assim é a vida: um conjunto de livros sendo escritos ao mesmo tempo.